31 de março de 2013

Capítulo 12 - A aventura de Morango


Digory fechou a boca e apertou os lábios. Seu mal-estar aumentava. Tinha a esperança de que, acontecesse o que acontecesse, não choramingaria, nem faria nada ridículo.
— Filho de Adão, está disposto a desfazer o mal que fez ao meu manso país de Nárnia no dia de seu próprio nascimento?
— Só não sei o que posso fazer. Como o senhor sabe, a rainha fugiu e...
— Perguntei se está disposto — repetiu o Leão.
— Estou.
Passara-lhe um segundo pela cabeça a tentação boba de responder: “Estou disposto, se o senhor prometer-me ajudar minha mãe.” Mas percebeu a tempo que o Leão não era criatura com a qual se podia fazer barganhas. Porém, quando disse “Estou”, pensou na mãe, nas grandes esperanças que tivera, e em como agora elas estavam para morrer. Sentiu um nó na garganta e lágrimas nos olhos. Deixou escapar, no entanto:
— Mas, por favor, por favor... o senhor não podia me dar qualquer coisa que salvasse minha mãe?
Até aquele instante, só olhara para as patas do Leão; agora, com o desespero, olhou-o nos olhos. O que viu o surpreendeu mais do que qualquer outra coisa. Pois a face castanha estava inclinada perto do seu próprio rosto e (maravilha das maravilhas) grandes lágrimas brilhavam nos olhos do Leão. Eram lágrimas tão grandes e tão brilhantes, comparadas às de Digory, que por um instante sentiu que o Leão sofria por sua mãe mais do que ele próprio.
— Meu filho, meu filho, eu sei. A dor é grande. Só você e eu nesta terra sabemos disso. Sejamos compassivos um com o outro. Mas tenho de pensar em centenas de anos da vida de Nárnia. A feiticeira que trouxe para este mundo ainda voltará a Nárnia. Mas não precisa ser já. É meu desejo plantar em Nárnia uma árvore da qual ela não ousará aproximar-se durante anos e anos. Assim, esta terra conhecerá uma longa e luminosa manhã antes que qualquer nuvem obscureça o sol. E você deverá trazer-me a semente dessa árvore.
— Sim, senhor.
Digory não sabia o que iria fazer, mas naquele momento teve a certeza de que, fosse como fosse, seria capaz de fazê-lo. O Leão respirou fundo, inclinou ainda mais a cabeça e deu-lhe um beijo de Leão. O menino sentiu instantaneamente que havia conquistado uma nova força e uma nova coragem.
— Meu filho, vou dizer-lhe o que deverá fazer. Olhe para o oeste e diga-me o que vê.
— Vejo montanhas enormes, Aslam. Vejo este rio caindo através de penhascos, numa grande cachoeira. E além há colinas verdes e florestas. E ainda mais além há altíssimas cordilheiras que parecem negras. E mais longe, muito mais longe, há colossais montanhas cobertas de neve. E além delas não há mais nada, só o céu.
— Enxerga bem. Escute: a terra de Nárnia termina onde está a cachoeira; lá em cima, lá estará fora de Nárnia, em pleno Ermo ocidental. Deverá atravessar aquelas montanhas até encontrar um vale verde com um lago azul, cercado de montanhas de gelo. No fim do lago há um monte verde e escarpado. No cume desse monte há um jardim. No centro do jardim há uma árvore. Apanhe uma maçã dessa árvore e traga a fruta para mim.
— Sim, senhor.
Digory não tinha a menor ideia de como subir até a cachoeira e achar o caminho entre aquelas montanhas todas; mas, se revelasse isso, poderia parecer desculpa para não ir. Disse apenas o seguinte:
— Espero, Aslam, que não esteja com muita pressa. Levarei algum tempo para ir e voltar.
— Filho de Adão, você terá ajuda.
Aslam voltou-se para o cavalo, que durante esse tempo ouvira a conversa com um ar de quem não está entendendo muito.
— Meu amigo — disse Aslam ao cavalo — gostaria de ser um cavalo alado?
Você precisava ter visto o cavalo sacudindo a crina, com as ventas infladas, dando uma boa pata da no chão. “É claro que ele gostaria de ser um cavalo alado!” Mas disse apenas:
— Se quiser, Aslam... se quiser mesmo... mas não sei por que seria eu... não sou um cavalo muito inteligente.
— Seja alado. Seja você o pai de todos os cavalos voadores — rugiu Aslam, com uma voz que sacudiu a terra. — Seu nome é Pluma.
O cavalo passarinhou, como já devia ter passarinhado nos infelizes tempos do cabriolé. Ergueu-se e esticou o pescoço para trás, como se um inseto picasse seus ombros. Depois, assim como os bichos brotaram da terra, dos ombros de Pluma brotaram asas, que se estenderam e cresceram, maiores que asas de cisnes, de águias, maiores que asas de anjos nos vitrais das igrejas. As penas eram castanhas e acobreadas. Pluma deu um grande salto e subiu. Dez metros acima, bufou, relinchou e curveteou. Depois de dar uma volta em círculo, pousou na terra, as quatro patas de uma vez, parecendo muito espantado, mas muito contente.
— Gostou, Pluma? — perguntou Aslam.
— Bom, muito bom, Aslam.
— Levaria este Filho de Adão nas costas às montanhas de que falei?
— Agora? Imediatamente? — perguntou Morango... ou Pluma. — Ora essa! Venha, pequeno. Já tive coisas como você nas minhas costas. Há muito, muito tempo. Quando havia pastos verdes, e açúcar.
— Que estão as duas Filhas de Eva cochichando aí? — perguntou Aslam, voltando-se subitamente para Polly e para a mulher do cocheiro, que já eram muito amigas.
— Se o senhor permite — disse a rainha Helena (assim se chamava agora a mulher do cocheiro) — acho que a menina adoraria ir também, se não criar problema.
— O que acha, Pluma? — indagou o Leão.
— Oh, não me importo de levar dois, quando são pequeninos. Só espero que o elefante também não queira ir conosco.
Não era essa a vontade do elefante, e o novo rei de Nárnia ajudou as duas crianças a montar, quer dizer, deu um bom impulso em Digory e colocou Polly na garupa com toda a delicadeza, como se fosse feita de porcelana.
— Tudo certo, Morango... quer dizer, Pluma.
— Não voe alto demais — advertiu Aslam. — Não tente passar por cima dos cumes das montanhas geladas. Busque os vales verdes. Sempre há um modo de atravessar a cordilheira. Partam com a minha bênção.
— Oh, Pluma! — exclamou Digory, inclinando-se para dar um tapinha carinhoso no pescoço lustroso do cavalo. — Que coisa fabulosa! Segure firme em mim, Polly.
No instante seguinte, a terra começou a distanciar-se deles, enquanto Pluma, como um imenso pombo, circulava duas vezes para tomar altura, antes de partir em voo direto para o oeste.
Polly mal podia enxergar lá embaixo o rei e a rainha; o próprio Aslam não passava de uma mancha brilhante na relva verde. O vento golpeava-lhes o rosto, e as asas de Pluma começaram a bater cadenciadamente.
Lá de cima podiam ver Nárnia inteira, com suas campinas de muitas cores, seus rochedos, prados e árvores, seu rio deslizando como uma fita de mercúrio. Em poucos instantes já sobrevoavam os cumes das colinas baixas. À esquerda, as montanhas eram bem mais altas, mas sempre podiam ver, através de brechas, as terras azuladas do sul.
— Olhe lá na frente! — disse Digory.
Uma grande muralha de penhascos levantava-se diante deles. A luz do sol dançando na grande cachoeira quase os ofuscava. Já voavam tão alto que o roncar das quedas d’água parecia um leve ruído, mas ainda não tinham alcançado os penhascos.
— Temos de fazer alguns ziguezagues — disse Pluma. — Segurem firme.
O ar ia ficando mais frio e podiam ouvir os gritos das águias embaixo.
— Olhe para trás, olhe! — disse Polly.
Lá estava todo o vale de Nárnia, estendendo-se até onde se podia distinguir o brilho do mar. Já estavam tão altos que podiam avistar as montanhas denteadas surgindo além das charnecas do norte e, ao sul, planícies que pareciam de areia.
— Gostaria que alguém pudesse dizer-nos que lugares são esses — falou Digory.
— Acho que eles ainda não são — comentou Polly — quer dizer, não há ninguém neles, nada aconteceu ainda. O mundo começou hoje.
— Pois é, mas as pessoas chegarão lá, e aí virão as histórias, entende?
— Bem, para mim, acho ótimo que ainda não tenham chegado. Ninguém tem de aprender o que ainda não aconteceu... batalhas, datas... essa chatice toda.
Estavam acima dos penhascos e, em poucos minutos, o vale de Nárnia sumiu atrás deles. Voavam sobre um país selvagem, de montes escarpados e florestas escuras, seguindo ainda o curso do rio. Mas o sol agora feria-lhes os olhos e já não podiam ver com nitidez naquela direção. O sol descambou lentamente, até que o céu do ocidente parecia uma fornalha de ouro derretido. Por fim escondeu-se por trás de um pico que se recortava no fulgor como uma figura de papelão.
— Não está muito quentinho aqui em cima — disse Polly.
— E as minhas asas estão começando a doer — disse Pluma. — Não vejo nenhum sinal do vale com o lago. Que tal se baixássemos e procurássemos um bom lugar para passar a noite? Não é necessário atingir o lugar esta noite.
— Certo — concordou Digory. — Além do mais, não está na hora do jantar?
Pluma foi descendo, descendo. O ar tornava-se mais quente. Depois de tantas horas sem ouvir nada, a não ser as batidas das asas de Pluma, era agradável ouvir de novo os ruídos familiares e terrestres – o marulhar do rio no leito pedregoso e o ranger das árvores ao vento suave. Um cheiro cálido de terra cozida pelo sol e de relvados e flores chegou até eles. Pluma afinal aterrissou. Digory ajudou Polly a desmontar. Era um prazer esticar as pernas.
O vale onde haviam descido estava no âmago das montanhas; cumes nevados, um deles de aspecto róseo pelo reflexo do sol poente, erguiam-se à frente.
— Que fome! — exclamou Digory.
— É só servir-se — falou Pluma, dando uma boa dentada na relva. Levantou a cabeça, ainda mastigando, e acrescentou: — Venham logo. Não façam cerimônia. Dá e sobra para todos.
— Acontece uma coisa, Pluma: nós não comemos capim.
— Hum, hum — murmurou Pluma, falando de boca cheia. — Não sei então o que vai ser. Excelente capim!
Digory e Polly olharam um para o outro, desanimados.
— Francamente, acho que alguém devia ter providenciado a nossa comida.
— Tenho certeza de que Aslam teria feito isso... se vocês tivessem pedido.
— Ele não saberia sem que a gente pedisse?
— Claro — respondeu o cavalo. — Mas acho que gosta que peçam.
— Que vamos fazer?
— Só sei que não sei — respondeu Pluma, ainda de boca cheia. — A não ser que vocês experimentem esta relvazinha. Talvez gostem mais do que imaginam.
— Oh, não banque o bobo — falou Polly, batendo com o pé. — Gente humana não pode comer relva, assim como você não pode comer costeletas.
— Por favor, Polly, não fale em costeletas — disse Digory — a coisa fica ainda pior.
Digory acabou achando que o melhor a fazer era o seguinte: Polly usaria o anel para ir até em casa e traria de lá alguma coisa. Ele não podia, pois prometera a Aslam incumbir-se da missão. Polly respondeu que não o deixaria, e Digory concordou que era uma atitude muito digna da parte dela.
— Ah, acabei de lembrar que ainda tenho aquele saco de puxa-puxas no bolso. É melhor do que nada.
— Muito melhor! Mas tenha cuidado: não vá tocar no anel.
Foi uma tarefa difícil e delicada, mas acabaram conseguindo realizá-la. O saco de papel estava todo grudento: era mais difícil tirar o saco de papel dos puxa-puxas do que tirar os puxa-puxas do saco de papel. Certos adultos preferem não comer nada a comer puxa-puxas como aqueles.
Eram nove ao todo. Digory teve a brilhante ideia de comerem quatro cada um e plantar o nono.
— Se a barra de ferro virou poste, por que isso não pode virar um pé de puxa-puxa?
Fizeram uma pequena cova na relva e enterraram um pedaço do puxa-puxa. Comeram então os outros, o mais lentamente que a fome lhes permitia. Foi uma refeição pobre, mesmo contando todo o papel que tiveram de engolir.
Pluma deitou-se após terminar seu excelente jantar. Os meninos estenderam-se de encontro a seu corpo quente, um de cada lado, e ficaram bem agasalhados sob suas asas.
As estrelas jovens do novo mundo iam surgindo enquanto eles conversavam sobre tudo o que acontecera. Digory contou sobre as suas esperanças de obter algo para a sua mãe e como, em vez disso, fora enviado àquela missão... Repetiram um para o outro todos os sinais pelos quais reconheceriam o local que buscavam: o lago azul e a colina com o jardim. A conversa já começava a esfriar, quando Polly subitamente se sentou, completamente acordada, e disse: “Quieto!”
Todos ficaram atentos.
— Deve ser o vento nas árvores — disse Digory.
— Não tenho certeza — disse Pluma. — Ouçam de novo. Por Aslam, é alguma coisa.
O cavalo levantou-se nas patas com uma barulhada convulsa. As crianças também puseram-se de pé. Pluma andou para cá e para lá, bufando e relinchando. Os outros dois, nas pontas dos pés, olharam atrás de todas as moitas e árvores. Começaram a pensar que haviam imaginado coisas. Polly chegou a ter certeza de ter visto uma forma alta e escura, deslizando depressa no sentido oeste.
Nada descobriram. Pluma deitou-se de novo e agasalhou as crianças sob as asas. Dormiram. Pluma permaneceu acordado por muito mais tempo, mexendo com as orelhas no escuro, dando às vezes um repelão no pelo como se houvesse moscas. Por fim, acabou também adormecendo.

4 comentários:

  1. Legal... ñ foi o melhor capítulo até agora mais.. é legal !!

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  2. gaby filha de athena31 de março de 2014 23:08

    lembrei do blackjack e os seus cubos de açucar kkkkk

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  3. Lembrei do Finnick e seus cubos de açúcar '-' Dá um pro Pluma vai Finnick :3 uehueueeh

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